Entrou no quarto, jogou a mochila na poltrona ao lado da cama, sentou e tentou relaxar um pouco. Chegava àquela hora e estava morrendo de fome, apesar de trabalhar no McDonald’s, não aguentava mais comer sanduíches, odiava até o cheiro. O pior é que sua geladeira estava vazia, não teve tempo de comprar nada. “SACO!”, exclamou aborrecida. Bruna morava com uma amiga que como ela, não tinha tempo para nada.
Levantou, olhou-se no espelho, era uma garota de 18 anos, linda, loira de olhos castanhos, magra e relativamente alta. Ajeitou a blusa, pegou a mochila e saiu para ir ao supermercado que ficava a duas quadras. Foi caminhando e pensando no cansaço, mas a fome era maior. Havia começado o curso de Direito na melhor faculdade da cidade e trabalhava meio expediente à noite. Gostava da vida como estava, mas precisava de mais dinheiro. Com o que ganhava e o pouco que seus pais lhe mandavam não dava para muita coisa. Bruna queria ser como as garotas na faculdade que se vestiam bem, usavam roupas caras, tinham carros. Se chateava por não ter grana para tanto. Chegou no supermercado, comprou o que precisava e foi para casa.
No dia seguinte, uma de suas amigas do curso lhe convidou para uma festa na casa de um amigo. Ela aceitou na hora, estava louca para dançar um pouco, se divertir e quem sabe, conhecer alguém interessante.
Ao chegarem no local, Bruna ficou de “queixo caído”. Era uma mansão linda! Logo pensou: “Humm, a festa vai ser boa mesmo!”.
Entraram na casa, estava lotada, muita gente, a música alta e garçons passando de um lado para outro. Sua amiga, Lina, a levou até o anfitrião para apresentá-la. Ele estava cercado de mulheres, era um homem alto, cabelos escuros, olhos pretos e porte atlético, aparentava uns 40 anos. Estava bem vestido e logo que a viu, não lhe tirou os olhos de cima. Lina apresentou Greg a Bruna, ele apertou sua mão e olhou em seus olhos como se quisesse ler seus pensamentos. Bruna sentiu o coração acelerar.
Ficaram juntos durante a festa, dançaram, conversaram e trocaram seus números de telefones. Ele era sedutor, charmoso e seu olhar a extasiava.
Chegou em casa, deitou mas não conseguiu dormir, a imagem de Greg não lhe saia da cabeça. Lina comentou que ele era investidor. Era tudo que ela queria, um homem bonito e rico. Podia pedir mais?
Alguns dias depois marcaram um encontro. Bruna chegou no local um pouco atrasada, levou muito tempo para arrumar-se, queria estar linda para ele.
Jantaram num restaurante fino, ela estava deslumbrada. Greg a convidou para irem à sua casa após o jantar, ela aceitou. Já na mansão, ele pôs uma música e a levou para o centro da ampla sala. Juntou seu corpo ao dela num baile lento, suave, os braços em volta de sua cintura num abraço apertado. Greg a olhou, estava tão próximo que podia sentir sua respiração. Aproximou-se mais, então pôde sentir o gosto daquela boca num beijo demorado e sôfrego de paixão. Bruna não sabe por quanto tempo ficaram ali entregues aos beijos e carícias.
Sentiu as mãos dele entre seus cabelos, Greg sabia que a jovem estava tomada, perdida, umedecida pelo desejo. Inclinou levemente sua cabeça e sem titubear, cravou seus dentes no pescoço de Bruna. Ela sentiu seu corpo tremer, seu sangue ferver, era um misto de dor e prazer que jamais havia experimentado. Sentia-se enfraquecer, ele saciava toda sua sede em Bruna.
Acordou no dia seguinte na cama de Greg, um lençol de seda cobria seu corpo nu. Estava confusa, sem forças, não lembrava muito bem o que havia acontecido. Recordou da mordida, passou a mão no pescoço e sentiu que estava ferido. Tentou levantar mas nesse instante ele entrou no quarto com uma bandeja de café da manhã para ela. Encantador, com um sorriso iluminado.
Beijou-lhe os lábios com delicadeza e desejou-lhe um bom dia. Sentou-se diante dela na cama e perguntou como se sentia.
Era como estar em meio a uma tormenta de sentimentos, medo, ansiedade, desejo, paixão. Sabia que deveria ir embora, mas não conseguiria afastar-se dele. Parecia dois homens dentro de um, o primeiro maravilhoso, um deus. O segundo, causava-lhe temor, como se tivesse uma aura escura, algo que não entendia, mas que sentia-se perigosamente atraída. Bruna continuou na mansão por dias seguidos perdida nos braços de Greg. Deliciando-se com tudo de misterioso que lhe apresentava. Ele propôs viverem juntos, ela aceitou.
Começaram a fazer muitas festa na casa, sempre regadas a bebidas e extravagâncias. Durante as comemorações, escolhia suas vítimas e as deixava como cascas ressequidas. Sem piedade nem culpa, saciava-se e percebia um imenso prazer em cada gota de sangue que sua língua saboreava. Sentia-se forte, invencível, brincava de ser Deus.
Ao dia seguinte a cada reunião, acordava com a sensação de ter tido um sonho (ou pesadelo), era tudo tão surreal que lhe parecia impossível que fosse verdadeiro.
Naquele dia, Greg saiu cedo e Bruna resolveu explorar a área externa da mansão. Começou pelos fundos, e percebeu que o terreno era bem maior do que imaginava. Após um tempo caminhando, avistou um galpão e ficou curiosa para saber o que havia lá dentro. Quando se aproximou, viu que a porta estava com cadeado. “Merda, queria tanto entrar!”. Deu a volta procurando uma entrada, e encontrou uma abertura pequena na parede, estava com um cadeado aberto, alguém esqueceu de fechar. Empurrou a portinhola e entrou.
Um mau cheiro de carne estragada impregnava o lugar e para seu pavor, havia uma piscina com vários crocodilos dentro e ao redor. Sentiu muito medo e tratou de sair, mas antes uma coisa lhe chamou atenção, não queria acreditar no que via. Parecia uma perna humana. Então olhou com mais atenção ao redor e viu que haviam vários corpos aos pedaços, os animais brigavam rasgando aquelas pessoas. Saiu aterrorizada!
Não foi ilusão, não foi um sonho nem um pesadelo, não foi delírio, nem estava entorpecida pelas drogas. Aquelas pessoas, ela ajudou Greg a matá-las naquelas noites de excessos e lascívia.
Entrou no quarto e fechou a porta. Suas lembranças ferviam, gritos, murmúrios, gemidos e desespero. Não tinha ideia de quantos matou. Olhou-se no espelho e não se reconheceu, não era mais aquela garota de 18 anos de algum tempo atrás. Havia abandonado sua família, amigos, estudos. Transformou-se em algo que não era mais humano, não podia ser. Era um monstro sanguinário e sedento. Bruna caiu num desesperado e angustiado pranto.
Um pouco recuperada, resolveu sair. Pegou um dos carros de Greg e comecou a dirigir sem rumo, precisava acabar com esse pesadelo que agora sabia, era real. Foi até uma estrada fora da cidade, aumentou a velocidade e lançou o carro num abismo. Dias depois seu corpo carbonizado foi encontrado entre as ferragens do veículo.
Texto registrado no "Literar.org". Proibido copiar.




